quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Nós e os mitos!


As Plêiades
Minhas questões existenciais têm o tempo da consciência desta que vos escreve. Acho que o tal do sentido da vida que a gente procura é para diminuir o medo diante da nossa condição de finitude. Tememos mais do que deveríamos. Somos vulneráveis por definição. 

O homem sempre se agarrou nos mitos para obter impulso a fim de suplantar as vicissitudes da vida. Nosso espírito está generosamente povoado de mitos, de sonhos e de utopias. Ai de nós se não tivéssemos nada para crer. Acho que esta é a forma mais antiga de auto-ajuda.

Desde que o mundo é mundo, sobretudo na versão que nos oferece a mitologia grega, vemos a fraqueza humana diante da força da natureza. Hoje em dia, a gente joga essas fraquezas para debaixo do tapete. É imoral perder, temos vergonha de sofrer! Vivemos a era da euforia prêt-à-porter, nem que seja à base de Rivotril.

Ela é amedrontadora, sim, mas também motor de ação. A velha da foice foi chamada por Manuel Bandeira de a mais “indesejada das gentes”. Na medida em que vou amadurecendo percebo que o nosso previsível fim gera inúmeras questões que direcionam para um olhar sobre a nossa relação com a vida. 

É por tudo isso que eu, com meus medos, mitos e crenças, procuro cada vez mais dar valor a minha prática diária. E um bom começo para perceber isto se dá através da percepção da nossa respiração e da consciência corporal. 

Ah, quanta sabedoria que vem lá do Oriente! Que os ventos continuem trazendo-a para nós!

Voltei, pessoal! 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Tramas em alta no mundo artsy



Instalação de Joana Vasconcelos
Depois que eu postei no mês passado as esculturas maravilhosas da artista Toshiko Horiuchi, que criou um parque infantil feito com crochê em Sapporo, no Japão, percebi que a onda handmade não se restringe apenas ao universo lúdico infantil e chega ao mundo artsy.

As redes de Ernesto Neto

No Brasil, o artista Ernesto Neto expõe suas esculturas elásticas feitas de crochê que lembram redes na galeria Fortes Vilaça. E o melhor, o publico pode interagir. O espectador é convidado a participar ativamente, tocando, cheirando ou adentrando o espaço da escultura.  C'est pas mal!

E na França a badalada artista portuguesa Joana Vasconcelos montou uma série de esculturas gigantes feitas de tricô, crochê e patchwork. Estas estão expostas no Palácio de Versalhes. Vale a pena dar uma olhada no site da expô: http://www.vasconcelos-versailles.com/


Instalação em Versailles

Adoro essa profusão de cores, retalhos e tecidos! E para quem gosta de se inspirar nas tendências e é adepta ao "do it yourself", aconselho uma passada na Fenearte para garimpar algumas possíveis futuras instalações.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A semelhança entre o ouriço de Barbery e o cachimbo de Magritte!



Após algumas noites insones por conta dele, finalmente consegui terminar ontem a Elegância do Ouriço, da escritora e filósofa francesa Muriel Barbery. Ele, o livro, chega como quem não quer nada, mas aos poucos vai conquistando pela excelente narrativa. As duas personagens principais, Paloma e Renée, passam a vida preocupadas em apagar os traços de suas existências, embora sejam de uma sedutora riqueza intelectual. A história se passa no edifício chiquérrimo da aristocracia francesa localizado à Rua de Grenelle, 7, onde ambas residem.

As observações sobre literatura, escrita, envelhecimento, psicanálise e outros assuntos da vida moderna são descritas através de uma narrativa recheada de ironia. E deliciosamente despretensiosa. O curioso é que essas impressões das personagens me remeteram ao humor do pintor belga René Magritte. Mais precisamente à obra das mais conhecidas: Ceci n’est pás une pipe (Isto não é um cachimbo)! Em comum entre os três? O jogo com o significado das palavras. Eu tenho pra mim que a autora do livro fez uma homenagem ao pintor.

Minha primeira pista começa pelo nome da concierge: Renée, a forma feminina do primeiro nome de Magritte. Outra peculiaridade que me chamou a atenção foi os nomes que a autora escolheu para as duas irmãs da Rua Grenelle, Paloma e Colombe. Esses nomes significam Pomba em línguas diferentes. O fato de Muriel Barbery ser filósofa e, portanto, conhecedora de conceitos de linguística utilizados por Magritte me soou como mais uma grande coincidência.

A gente não percebe o tempo passar quando adentramos nos pensamentos profundos contidos no livro e, tal como Paloma e Renée, nos percebemos sozinhos em nossos pequenos mundos. A vontade que dá é ler de novo este romance sobre solidão e amizade, arte e beleza, justiça e amor, tempo e eternidade.

Obrigada pela dica, Gilberto! Adorei.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Vale a pena refletir sobre!




Quando vi o título e o autor do livro no Alas (encontro sul-americano de sociologia que aconteceu no Recife no ano passado), não pensei duas vezes.  O livro Os Estabelecidos e os Outsiders”, de Nobert Elias e John Scotson, estava gritando para chamar a minha atenção. Tinha que ler aquela obra de título sugestivo. Como eu já tinha comprado outros tantos, fiquei reticente. “Olha a compulsão, Juliana”!, afirmava meu superego, a parte moral do juízo que queria inibir meus impulsos através da culpa.

Mas, nem mesmo ele conseguiu me conduzir aos seus apelos. Depois de a paquera perdurar por uma semana, fui seduzida e acabei levando-o comigo pra casa. O livro é de fato tudo o que eu
a priori pensei sobre ele. Após quase um ano após a compra, eis minhas impressões!

Trata-se de uma pesquisa feita no interior da Inglaterra. Após três anos estudando aquela comunidade, Elias e Scotson mostram uma clara divisão entre um grupo de residentes estabelecido por muito tempo num bairro relativamente antigo e, ao redor dele, duas povoações formadas em época mais recente, cujos moradores eram tratados pelo grupo dos estabelecidos como outsiders.

É um livro de pesquisa, mas com uma leitura muito prazerosa (aliás, como tudo que Elias escreve) que combina dados de fontes diferentes como estatísticas oficiais, relatórios, artigos de jornais, entrevistas e, principalmente, uma permanente observação (ah, como a etnografia enriquece uma pesquisa!). Graças aos diversos tipos de fonte, fica mais fácil a compreender os laços de interdependência que unem, separam e classificam os indivíduos e grupos sociais, em relação de poder constante.

Em pauta, a relação de poder entre dois grupos de moradores que não se diferenciam quanto a seu tipo de ocupação, origem, religião, educação, classe social, cor, raça, mas sim no que se refere ao tempo em que residiam na comunidade. Isto é que é muito curioso. O grupo estabelecido os estigmatizava como pessoas de valor inferior, tratavam os moradores novos como indivíduos que não se inseriam no grupo, como forasteiros, “os de fora.”

É um livro que nos ajuda a entender melhor questões bem contemporâneas e globais como relações de poder, exclusão social, cidadania e afins.

Recomendo!


terça-feira, 29 de maio de 2012

Notícias de Paris



Para quem gosta de navegar pelo mundo da arte, lá vai uma dica. O Grand Palais, em Paris, acabou de inaugurar a Monumenta 2012, uma exposição anual onde o artista convidado tem como desafio ocupar os 13.500 metros quadrados do espaço com uma obra única.


Este ano, o convidado para montar uma instalação no local foi Daniel Buren, artista plástico queridinho do momento e conhecido por suas famosas colunas bicolores.

 
 
Buren cobriu a nave principal do Grand Palais com estruturas circulares revestidas de filme colorido que absorvem a luz natural e transformam o ambiente numa gigantesca paleta de cores luminosa



Vale a pena uma visita, nem que seja virtualmente falando.

É demasiadamente bacana!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O orvalho de Brígida


Coleta de Neblina. Crédito: Galeria Nara Roesler
Fui apresentada à obra de Brígida Baltar quando morava em São Paulo numa bela exposição na Galeria Nara Roesler. Numa expô do Mamam, tornei-me definitivamente fã desta artista, que investiga o tempo e as dimensões do efêmero  anos depois. Para compor a série Umidades, que eu adoro, a artista coletou amostras da neblina, da maresia e do orvalho. Esses fenômenos naturais foram capturados através de tubos de ensaio instalados numa roupa especial acoplados às costas da artista, que registrou todo o processo de criação em fotografias e em filme.   

Coleta da Maresia. Crédito: Nara Roesler
Através de sua obra, Brígida assume uma atitude poética e ativa nossos sensores. A percepção que tenho acerca de Umidades é de uma obra fluída, não palpável, que se esvai das nossas mãos. Essa impossibilidade de tocar e de ver algo material aguça ainda mais a percepção do olfato, da visão e da audição. Penso que a gente acessa a sua obra quando entramos num estado de contemplação.

Brígida vai além. Vai em busca de captar o efêmero. Suas obras refletem a subjetividade no mundo. Nelas, a artista explora a memória e a afetividade geradas nos eventos da vida. São memórias afetivas. Lembranças de odores e de sons, de prazer e de melancolia. 


Sem dúvida, uma artista da contemporaneidade cuja obra vale a pena ser apreciada.




* Quem quiser saber mais sobre a artista, acesse www.nararoesler.com.br.

domingo, 29 de abril de 2012

Jazz is Paris, bien sûr!


Fazia um tempão que eu não escutava uma das músicas mais cool de todos os tempos. Estou falando de Jazz is Paris, do lendário Malcolm McLaren, o criador de Sex Pistols e responsável pelo impulso do movimento punk no mundo. Ele foi casado com ninguém menos do que a icônica Vivienne Westwood e um dos percussores do voguing – estilo de dança surgido entre os negros e gays dos guetos norte-americanos, e propagado por Madonna. 

Voltando ao assunto. Jazz is Paris é densa, sofisticada, sedutora. Que reflete o sentimento noir de Paris. É isto tudo e muito mais. Adoro essa fase pop afrancesada de Malcolm McLaren. 

Um saxofone solitário numa ruela do Marais, um copo de vinho tinto no Le Cafe Victor Hugo, na Place de Vosges ao final de um longo dia passeando pelo charmoso bairro dos judeus. Elegância a transbordar em cada esquina, assim como Jazz is Paris, Paris is Jazz!